TRÊS VEZES CINEMA

14 03 2009

1. Cinema vs. Filmes

Mais uma vez vou assistir àquele filme. Já o vi várias vezes na TV e tenho até DVD em casa.

É bem verdade que eu nunca assisti ao DVD. Mas eu o tenho. Enfim…

Quando anunciou passando num cinema não pude resistir. Eu o acho fantástico e o cinema só o tornará mais incrível para mim. Vai agigantá-lo.

Adoro essa sala de cinema. Das antigas, com palco, mezanino, enorme e toda decorada com aqueles rococós bregas de antigamente. O charme está nos detalhes: a cortina de veludo, a cadeira almofadada e a música clássica antes da sessão.

O ingresso a preço popular só faz a festa mais interessante. Quero pessoas animadas ao meu lado, quero torcida, quero “AHHHHHs” e “OHHHHHs”, quero vaias e aplausos. Anseio pela platéia que interage com o filme, mescla-se com a exibição e torna-se uno com a experiência cinematográfica.

O público, ansioso com o início da projeção, começa a ritmar o “Co-me-ça! Co-me-ça” e os últimos assentos são preenchidos.

Shhh! A sessão já vai começar…

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2. Cinema-realidade

Aconteceu no meio do filme. Três fileiras à minha frente, duas colunas à esquerda.

A cena era de um casal – ele com seus idos 40 anos e ela com uns 30 – beijando-se em meio a todos.

De súbito, alguém lá na frente levanta-se e dirige-se a eles. Não sei se notam sua aproximação – não ficou muito claro.

Eu não estava entendendo muito bem o que acontecia. Não tinha dado crédito algum ao casal e muito menos a quem se aproximava.

Só sei que do nada dois estampidos altos ensurdeceram a todos. Quando os ouvidos voltaram ao normal, ouve-se um grito rouco e constante, quase um canto gregoriano com sua falta de variação tonal.

Outro estampido, mais surdez. Podia ser mais baixo o som. Mas, também, quem manda ficar tão perto da ação, né?

Neste momento todo o cinema ficou em silêncio, todo par de olhos grudados no acontecimento. Ninguém ousava respirar ou olhar pro lado. De repente, um barulho de pipoca mastigada. O filme continuava e ninguém queria perder um segundo sequer.

Sem trilha sonora ou efeitos sonoros, o sossego da sessão chega ao fim. Chegam os jornalistas e seus flashes. Depois os policiais e seus berros. O filme continua e ninguém quer perder a ação.

A trama, os personagens e a conclusão foram tão intensos que eu esqueci completamente o que fazia ali e que longa fui assistir. A realidade estava tão incrível que parecia até um filme.

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3. Nós Dois, Eles Dois

Lá estava eu brincando com o cigarro entre os dedos, do mindinho, girando até o polegar. A ansiedade subindo pela minha espinha batendo no centro da testa e descendo até a ponta dos meus dedos.

Nisso que dá ir ao cinema sozinho. Odeio ir sozinho. Acho muito deprimente, essa situação. Casais abraçados, amigos comentando suas expectativas, filhos excitados enchendo seus pais de perguntas e eu, só na fila, meio que inclinado pro lado com a falta do apoio de uma companhia.

E o cigarro. Eu tinha parado com ele, mas a ansiedade traz tudo de volta. É só tirá-lo do maço que ele se mescla aos meus dedos como se sempre estivesse ali, apenas um dedo a mais. Tamborilando, de uma ponta à outra da mão.

Sentado, só me resta esperar o início da sessão, sem alguém para conversar. As pessoas passam e perguntam “tem alguém aqui?” “não, pode sentar-se”. Estou sozinho. Eu e meu cigarro.

O casal à frente parece o mais grudento que já vi. Ficam segredando um no ouvido do outro sussurros que não compreendo mas que ferem minha solidão com seu carinho mútuo.

Durante toda a exibição, a língua dele sibilou no lóbulo dela, como se precisasse ter sua atenção a todo momento. Como se o filme estivesse atrapalhando a união deles.

Comecei a achar minha solitária condição em melhor situação que a dela.

Na saída, tentei juntar-me aos dois e ouvir o que aquele chato, que não desgrudava dela por um segundo, tanto tinha a confidenciar em seu ouvido. Ele, agarrado a ela, parecia um concha protegendo sua pérola a todo custo.

Mas, ao chegar à rua sinto-me arrependido e humilhado. Ela retira sua vara e põe seus óculos escuros. E ele a guia para o estacionamento perto. Com o mesmo carinho com que ele narrou o filme que eu tinha tido a oportunidade de assistir, mas perdi tempo invejando os dois.

Eu e meu cigarro.

Publicados originalmente em 28/05/2008, aqui.

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